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Notícias - Empreendedor
Escrito por A Gazeta - ES   
Qua, 21 de Outubro de 2009 11:25

Note-se que ele falava em emprego, não necessariamente em trabalho. Seria uma crítica à frágil noção de capitalismo no Brasil e a uma herança colonial escravocrata
André Hees

O sonho americano, o "american dream", todos conhecem: a busca da prosperidade com base no trabalho duro. É a história do sujeito que começou vendendo sanduíche na rua, depois montou uma lanchonete, depois uma rede de fast food. Paulo Francis costumava dizer que, em contraste, havia o "brazilian dream", o sonho brasileiro: um emprego público de meio-dia às seis e praia de manhã.

Note-se que ele falava em emprego, não necessariamente em trabalho. Seria uma crítica à frágil noção de capitalismo no Brasil e a uma herança colonial escravocrata, que enxergava o Estado como um enorme guarda-chuva, que não valorizava o trabalho e o espírito empreendedor.

Era uma ironia, claro. Há excelência no serviço público. O magistério, as carreiras de Estado, todos os que sustentam a máquina merecem dignidade, mas é evidente também que atualmente há um exagero, com o inchaço da administração pública e a abertura constante de novos concursos, que se tornaram o sonho de tantos jovens universitários.

Estudos divulgados em agosto pela ONG e site Contas Abertas, com base nos números oficiais do Orçamento da União e do Sistema Integrado de Administração Financeira, mostram que, no governo Lula, os gastos com pessoal tiveram crescimento real de 49%, já descontada a inflação acumulada no período.

Os números comparam os gastos do primeiro semestre de 2002, último ano de FHC, com o primeiro semestre deste ano. Em sete anos de governo Lula, o gasto saltou de R$ 53,5 bilhões para R$ 79,8 bilhões, um crescimento de R$ 26,2 bilhões. O valor inclui despesas com pessoal e encargos sociais dos órgãos federais da administração direta, autarquias, fundações e empresas estatais.

Outro estudo divulgado pelo Contas Abertas mostra que, em plena crise mundial, os gastos com pessoal subiram bem mais que os investimentos. Entre outubro de 2008 e agosto deste ano, a União ampliou em 19% os gastos com pessoal dos Três Poderes, em relação ao mesmo período do ano anterior: foram R$ 149 bilhões. Os investimentos subiram apenas 7% e chegaram a R$ 25,4 bilhões.

Em recente artigo no Globo, o economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, observou que as despesas do governo com Previdência, pessoal e assistência social, incluindo o Bolsa Família, transformaram o Orçamento da União numa grande folha de pagamento. A capacidade de investimentos do governo hoje está na faixa de 5% do Orçamento, o que não seria suficiente para garantir um crescimento sustentado do país.

Para bancar essa folha, o governo, de um lado, impõe à sociedade uma carga tributária de 36% do PIB, e, de outro, negligencia os investimentos públicos, especialmente em infraestrutura de transportes.

Raul Velloso aponta ainda a armadilha em que o país caiu, com essa equação: "De forma análoga ao que ocorre com o combate à inflação, continuar defendendo a ampliação desse manto de proteção já não rende tantos dividendos políticos; mas retirar as vantagens já concedidas pode impor custos elevados. Aqui, são tantos os eleitores beneficiados por pagamentos diretos do Orçamento que os políticos de visão limitada só enxergam uma rota – manter para sempre as pessoas nos feudos já conquistados e promover maiores aumentos reais de benefícios e salários", disse o economista, em artigo publicado no dia 12.

Essa rota pode reforçar a antiga visão do Estado como guarda-chuva, enquanto o empreendedor, pequeno ou grande, capaz de gerar riqueza e renda, é sufocado pela carga tributária e por uma fiscalização hostil que, em geral, o enxerga como uma ameaça a ser cercada por todos os lados. Isso faz, talvez, o emprego público virar o sonho brasileiro.

 

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