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Velhos ofícios resistem à modernidade Imprimir E-mail
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Escrito por Tribuna da Bahia - BA   
Qua, 18 de Agosto de 2010 07:13

Mudanças no mercado de trabalho, que cobram cada vez mais especialização e agilidade, vem criando um leque enorme de novas profissões


Cristiane Felix

Alfaiate, sapateiro, pintor de letreiros, serigrafista e fotógrafo lambe-lambe são apenas alguns dos ofícios seculares que podem ser vistos em uma busca rápida pelo Centro de Salvador. Essas e outras profissões, hoje consideradas antigas e quase extintas, resistem aos avanços da modernidade e ainda buscam lugar junto aos clientes mais exigentes.

As mudanças no mercado de trabalho, que cobram cada vez mais especialização e agilidade, vem criando um leque enorme de novas profissões e, ao mesmo tempo, fadando outros ofícios antigos e tradicionais ao esquecimento.

Somente em 2010, 47 novas ocupações e 84 titulações foram incluídas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), lista do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Pequena e simples, a placa com o dizer “Alfaiate”, acompanhada por um telefone, passa despercebida por quem circula pela Rua Pedro Autran, travessa entre a Rua Carlos Gomes e a Avenida Sete de Setembro. Ali trabalha Elias dos Santos, de 75 anos, 60 deles trabalhando como alfaiate.

A profissão, que para muitos pode estar em desuso, com a praticidade das grandes confecções e a variedade de lojas dos shoppings centers, até hoje é motivo de orgulho para Elias. “Vivo disso aqui. Considero a procura bastante grande e, muitas vezes chego a dispensar trabalho”, contou.

O ofício foi aprendido com mestres alfaiates no interior e aperfeiçoado no Sindicato dos Alfaiates quando ele tinha apenas 15 anos. Hoje, Elias conta que consegue manter uma renda boa, atendendo a mais de 20 clientes todo mês, entre senhores de idade, advogados e médicos.

Profissional igualmente dedicado, o sapateiro Ismael Soares, 41 anos, se diz desiludido com o ofício. “Penso em largar. Não está dando. Só passo raiva e as pessoas não valorizam o trabalho”, lamentou. Há três anos com uma sapataria no Taboão, ele desenvolve o ofício desde os 14 anos e reclama que, hoje em dia, os clientes são poucos, e que, quando aparecem, reclamam do serviço com frequência. “Poucas pessoas querem aprender a profissão. Acho que é muito pelo fato de ter que trabalhar muito e de ser estressante”, ressaltou.

Enquanto a tradição e a persistência marcam o trabalho manual e quase artesanal desses dois profissionais, a modernidade e os avanços tecnológicos imprimem mudanças em outros ofícios que, por necessidade, acompanham as mudanças do tempo.

E é assim com o fotógrafo Antônia Souza, 57. A caixa montada sobre um tripé de madeira e enfeitada com retratos na Praça Piedade, teoricamente anunciaria que ali são tiradas fotos lambe-lambe – estilo de fotografia comum em parques e jardins públicos do século XIX.

Mas, em uma conversa rápida com o fotógrafo dono do equipamento se percebe que o aparato só serve de chamariz para clientes. “Monto o lambe-lambe pela tradição, já que trabalho há 42 anos aqui, nesse mesmo local. Mas, hoje fotografo com a câmera digital pela praticidade e rapidez”, explicou.

O mercado muda o tempo todo

Antônio, que aprendeu a profissão com o pai, lembra que antigamente a Piedade era repleta de fotógrafos lambe-lambe e lamenta o fato de ter muita dificuldade para encontrar o material que possibilitaria fotografar com a antiga máquina. Hoje, ele faz entre 15 a 20 retratos por dia, geralmente 3x4 para documentos.

“Apesar da concorrência ser grande, já que muita gente tem câmera fotográfica em casa, continuo trabalhando com isso, que é meu ganha pão”, contou ele que, além de ter outra máquina lambe-lambe – mais bonita e conservada – que aluga para exposições antigas e ambientações em festas e demonstrações escolares, faz também fotos de casamentos e batizados para complementar a renda mensal.

Além destes, outros profissionais que eram facilmente encontrados há alguns anos estão cada vez mais escassos. Muitas profissões caem em desuso, são obrigadas a mudar e evoluir – por conta do desenvolvimento do mercado consumidor – ou simplesmente tornam-se desnecessária, em virtude do desenvolvimento de tecnologias e equipamentos que passam a substituí-las.

São alguns exemplos: serigrafistas, datilógrafos, ascensoristas, pintores de placas e letreiros, verdureiros e amoladores de faca, tesouras e alicates – que ofereciam serviços de porta em porta, engraxates, calceteiros, chapeleiros, funileiros de panelas de alumínio e lavadeiras.

Cresce o número de novas ocupações

Em abril desse ano, o MTE incluiu novas profissões na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), uma lista que identifica as ocupações no mercado de trabalho, para fins classificatórios em registros administrativos e domiciliares. Ela possibilita ao trabalhador o reconhecimento oficial da sua profissão, seja ela regulamentada por lei ou não.

Desenvolvida em 2002, a lista auxilia tanto na elaboração de políticas públicas quanto nos pagamentos de benefícios como o INSS. Com a inclusão recente, a CBO contará com 607 famílias, 2.511 ocupações e 7.419 titulações.

Entre as novas profissões reconhecidas estão novas categorias de tecnólogos e profissionais da Saúde, quatro delas estão na categoria de famílias, 47 na de ocupações e 84 na de titulações. Foram incluídas as famílias: engenheiros ambientais e afins; engenheiros de alimentos e afins; profissionais da administração dos serviços de segurança e chefes de cozinha e afins.

E ainda, algumas ocupações: musicoterapeuta, médico da estratégia de saúde da família, engenheiros de alimentos, psicólogo acupunturista, tecnólogo em petróleo e gás, tecnólogo em sistemas para internet, agente de microcrédito, despachante de trânsito, entre outros.

No entanto, há profissões que não constam na listagem do Ministério. É o caso, por exemplo, dos cordeiros – trabalhadores sazonais do Carnaval de Salvador.

Até o início de 2010, a estimativa era de que existissem na capital cerca de 70 mil cordeiros, isso sem contar os trabalhadores das micaretas do interior. A categoria já possui, inclusive, um sindicato com nove mil filiados que luta, anualmente, por melhorias das suas condições de trabalho.

 

 

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