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Casais buscam educação financeira e noções de mercado em curso na Bolsa
Felipe Frisch
São 18h de uma segunda-feira no Centro do Rio de Janeiro. Cinquenta pessoas de idades variadas lotam uma sala no térreo do prédio, onde já foi o centro nervoso financeiro da capital fluminense, a Bolsa do Rio, na Praça XV. Mas, diferentemente do que aconteceu até o fim dos anos 1990, quando ainda eram negociadas ali ações de grandes empresas brasileiras, o que está em jogo agora é a informação e o conhecimento. As dúvidas das pessoas são muitas, não apenas sobre mercado financeiro.
É gente que trabalha no Centro, ou nas proximidades, e que, depois de um dia intenso no batente, se dispõe a tomar lições de educação financeira, que abrangem desde orçamento doméstico a investimentos pessoais: da tradicional poupança até o — ainda considerado sofisticado por muitos — mercado de ações, passando pelos fundos de investimento. O local agora virou a sede institucional da Bolsa de Valores, Mercadorias & Futuros (BM&F Bovespa) no Rio e de cursos gratuitos.
Este é voltado para famílias.
No curso, poupança é a maior fonte de dúvidas Mas a frequência é diversificada: estão presentes pessoas sozinhas, estudantes universitários, aposentados, grupos de amigos e muitos casais, boa parte recém-casados, interessados em administrar os recursos do lar melhor do que as gerações anteriores, que ainda viveram em um ambiente de inflação alta e com poucas opções de aplicações financeiras. Hoje, há mais escolhas, mas também mais incertezas diante da volatilidade do mercado. A Praça XV ainda é o centro nervoso financeiro do Rio.
A maior parte das perguntas surge quando o professor Mauro Salema, funcionário da Bolsa, fala da poupança. Ela que sempre foi a mais simples das aplicações, mas foi ameaçada pelo governo de sofrer mudanças, diante da concorrência com fundos DI e de renda fixa, que compram títulos da dívida pública atrelados à taxa básica de juros (Selic, reduzida a 8 , 7 5 % a o ano). Por ora, o governo parece ter desistido de mexer nas regras.
O Globo acompanhou três casais que frequentaram as aulas, durante a semana seguinte ao curso, para saber como os conhecimentos adquiridos estavam sendo aplicados na prática.
O oficial do Exército Hélcio Alves, de 38 anos, conta que procurou o curso para ajudar a reduzir as despesas de casa, depois que a esposa, a publicitária Marcelle Rêgo, de 34, com quem é casado há um ano e meio, ficou desempregada por nove meses.
— Procuramos o curso para dar uma enxugada no orçamento e não precisar mexer no dinheiro aplicado, que é a nossa reserva. Tínhamos um padrão mais alto. Cortamos lazer, idas a restaurantes, o que fazíamos bastante, pegamos pacotes mais baratos de telefone e TV a cabo, procuramos descontos de anuidade no cartão de crédito — ensina Hélcio, que já vinha adotando muitas das medidas sugeridas e quis saber se estava fazendo tudo certo.
Outra mudança foi passar a filha de Marcelle de 4 anos do horário integral na escola para o meio período, já que a própria mãe poderia tomar conta em parte do dia. Agora, a menina vai voltar ao período integral: a mãe conseguiu um novo emprego. Mas, como o salário é inferior ao antigo, parte dos ajustes de contas precisará ser mantida.
Uma das lições do curso é ter uma reserva equivalente a pelo menos três meses de renda da família na poupança ou em fundos conservadores, para eventuais períodos de aperto. Hélcio e Marcelle seguem a sugestão.
Os gaúchos Aline Prates Miguel, de 26 anos, e Vinícius Morales da Silva, de 28, procuraram o curso ainda mais cedo: vão se casar no fim do ano, mas moram juntos em Niterói desde dezembro.
Ela conta que Vinícius, cabo da Marinha, já passou aperto para sustentar um carro, comprando combustível no cartão: — Estamos na época de adquirir o colchão de liquidez (a reserva). Gasolina não é um bem durável. Como vai pagar em 30 dias algo que foi usado hoje? Ele adquiriu uma dívida enorme em função do carro, mas se estabilizou — afirma Aline, ex-agente de saúde em Porto Alegre, que hoje cuida da casa.
Para ela, um ensinamento importante das aulas que já vem sendo colocado em prática é o conceito de longo prazo, especialmente para os investimentos no mercado de ações.
— Queríamos saber mais sobre aplicações. O Vinícius investia em ações, mas, quando a Bolsa caía, tirava, não deixava para ver o que ia acontecer. Agora, ele investiu e está mais tranquilo. O orçamento da casa está mais organizado, conseguimos fazer de uma maneira melhor do que fazíamos — diz.
Outros dois que se casaram recentemente e preferiram procurar a sala de aula antes do gerente do banco foram o engenheiro civil Fábio Leal Jarandilla, de 30 anos, e a advogada Hélida Bernardes Jarandilla, de 27. Ele diz que já tinha feito um curso na Bolsa sem foco específico para famílias.
— Chamei minha mulher porque não adiantaria só eu aplicar os conceitos. Os pequenos ajustes do dia a dia podem fazer uma diferença muito grande no fim do mês — diz Fábio, que cortou supérfluos nas compras de supermercado e que agora vê a importância de consultar encartes, ir alimentado para o supermercado e ter uma lista de compras, para não levar mais do que o necessário.
Se “casais inteligentes enriquecem juntos”, como diz o título do livro sucesso de vendas do consultor financeiro Gustavo Cerbasi, assistir a aulas juntos pode ajudar pelo menos a garantir o equilíbrio das contas.
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