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"Queremos aumentar a ligação não só com estudantes e pós-graduados nas universidades, mas com professores que estão construindo carreiras na área de tecnologia"
Jacilio Saraiva
Grandes empresas e universidades têm razões diferentes para investir em parques tecnológicos no Brasil. Enquanto o meio acadêmico quer aproveitar a proximidade com os centros de conhecimento para pavimentar as carreiras de seus alunos, as corporações visam trocar experiências com outras organizações e garantir o acesso a talentos vindos das salas de aula.
Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), há 74 projetos de parques tecnológicos no país: 25 em operação, 32 na fase de planejamento e 17 em implantação. Junto com 400 incubadoras, eles englobam mais de 6 mil empresas que geram 33 mil postos de trabalho direto.
"Queremos aumentar a ligação não só com estudantes e pós-graduados nas universidades, mas com professores que estão construindo carreiras na área de tecnologia", afirma John Wheeler, gerente-sênior da fabricante de computadores Dell, instalada no parque tecnológico da PUC de Porto Alegre, o Tecnopuc, desde 2001. O complexo é o maior parque de desenvolvimento de tecnologia da América Latina vinculado a uma universidade privada. No Brasil, a maioria dos parques são ligados à instituições de ensino superior. "Começamos com 15 pesquisadores e hoje temos 500 técnicos trabalhando nos laboratórios."
Segundo Wheeler, a Dell prefere aplicar em parques tecnológicos que garantam resultados concretos e acúmulo de expertise. Para ele, a vantagem de pertencer a um parque no Brasil é a possibilidade de interagir com organizações que tenham operações nos centros, como Microsoft e Oracle.
"Também buscamos uma maior ligação com associações de empresas e mais acesso a talentos, entre estudantes e professores da área de tecnologia." Wheeler também destaca a importância de aproveitar a infraestrutura da universidade onde ficam os parques, com laboratórios e bibliotecas, para o desenvolvimento de soluções.
A Dell tem unidades de pesquisa em outros parques tecnológicos, como na Malásia. O centro de desenvolvimento do Brasil foi o primeiro a operar fora dos Estados Unidos. Os pesquisadores brasileiros foram responsáveis pela criação de um software utilizado para organizar a contabilidade da empresa em cerca de 80 países e dar suporte a processos internos ligados à área de vendas.
Segundo Wheeler, ter uma fábrica da companhia no Rio Grande do Sul também estimulou a ida do laboratório da empresa para o centro de referência da PUC gaúcha. A chegada da Dell facilitou a vinda de outras corporações, como a concorrente HP. Hoje, mais de 40 companhias estão lá.
Para se instalar no Tecnopuc é preciso estabelecer parcerias de desenvolvimento científico com a universidade. No caso da fabricante de computadores, ela financia bolsas de estudo e contrata estudantes como estagiários. "É importante concentrar em um mesmo local atividades de produção, pesquisa e desenvolvimento", diz o executivo texano, que mora em Porto Alegre há dois anos.
Segundo Luis Afonso Bermudes, diretor do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da Universidade de Brasília (UnB), que acolhe entidades como a Fundação Oswaldo Cruz, os parques ligados às instituições de ensino querem abrigar grandes empresas para garantir carreiras para os alunos. "O retorno não vem da receita imobiliária por hospedar as companhias, mas da receita tecnológica, que gera emprego, renda e parcerias." O CDT foi criado em 1986 e administra o Parque Científico e Tecnológico da UnB.
Uma das empresas do parque tecnológico de Brasília é a Autotrac, que tem o ex-piloto Nelson Piquet como acionista. A companhia desenvolve softwares de acompanhamento de veículos via satélite. "Piquet foi convidado por vários municípios com a oferta de isenções de impostos. Mas optou por Brasília porque precisava de recursos humanos bem formados", conta Bermudes. Na época, 15 engenheiros da universidade foram contratados e continuam na diretoria da empresa até hoje. A tecnologia da Autotrac já foi instalada em mais de 100 mil veículos. "A postura do reitor da UnB, bastante incisiva, também foi fundamental para levar a empresa para lá."
Para o reitor Renato Aquino Nunes, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais, que lidera um movimento de inovação e empreendedorismo, as universidades ganharam novas funções nos últimos anos "As escolas devem atender às necessidades da sociedade, aprender a gerenciar projetos e ajudar na maior interação com as empresas, governos e entidades", afirma. "Um curso de graduação pode ser considerado um projeto, mas é difícil encontrar professores com formação em gerenciamento de projetos."
A Unifei é a gestora da fase inicial do ParCTec, parque tecnológico criado em 2005 que ocupa uma área de 40 mil metros quadrados, com 17 empresas incubadas. Inclui centros de eficiência energética, de biomateriais e de qualidade de energia, avaliados em mais de R$ 10 milhões. Em parceria com o Banco do Brasil, prepara um novo núcleo de tecnologias para educação e gestão, com investimentos de R$ 2,7 milhões. "Até 2011, vamos ter ainda uma unidade de engenharia da montadora de helicópteros Helibras", revela Nunes.
Segundo o reitor, já foram investidos R$ 22 milhões no parque - R$ 7 milhões vieram do governo de Minas Gerais. "Para cada real investido pelo governo, o parque foi buscar mais R$ 2 com investidores privados". Das empresas incubadas no complexo, duas têm investimentos de empresas de capital de risco.
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