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'Eu tenho negócios, não aposto em ações' Imprimir E-mail
Notícias - Empreendedor
Escrito por O Globo - RJ   
Seg, 28 de Setembro de 2009 06:30

Em visita ao Brasil, autor do best-seller 'Pai rico, pai pobre' afirma que bolsas vão despencar novamente
Da Redação

Ele é o livro de cabeceira de nove entre dez pessoas que já se questionaram por que não nasceram ricas. Autor de dicas polêmicas, como a de que ter amigos endinheirados pode torná-lo um deles — “É nessas conversas que surgem os negócios”, diz —, o havaiano Robert Kiyosaki, de 62 anos, tem origem modesta, filho de professor, o “pai pobre”.

Hoje, gasta cerca de US$ 3 milhões ao mês, oriundos de seus ganhos com imóveis, poços de petróleo e minas de prata, ouro e cobre. O autor de “Pai rico, pai pobre” (Editora Campus-Elsevier) esteve no Brasil pela primeira vez na semana passada para a Bienal do Livro.

“O mercado de ações vai despencar novamente, eu garanto”, diz, em entrevista ao Globo.

Felipe Frisch

O Globo: Como o senhor explica o sucesso mundial do livro?

Robert Kiyosaki: O livro explica por que os ricos são ricos, de forma simples, com exemplos claros. Você não vai à escola para ficar rico. Meu pai (o pai de fato, a quem ele chama de “pai pobre” no livro) era PhD (equivalente a doutor, no Brasil) e nunca ficou rico.

O livro confronta a educação formal e o sucesso financeiro.

Esse raciocínio não é perigoso? Não existe relação entre formação e ganhar dinheiro?

Kiyosaki: Mas você não precisa de educação para ser rico.

Você precisa de educação para ser um médico, um contador, um advogado, mas o mundo é cheio de gente rica que não foi ou não concluiu os estudos, como Bill Gates, da Microsoft, Steve Jobs, da Apple, Michael Dell, da Dell, Thomas Edison, que fundou a GE, e Henry Ford, da Ford, que era considerado burro. Não existe relação entre educação e enriquecimento no atual sistema educacional. Não se ensina nada sobre dinheiro.

Não estou dizendo que a escola é ruim, é preciso ir à escola, é importante, mas não se ensina educação financeira na escola.

Como o senhor era na escola?

Kiyosaki: Eu sempre fui um mau aluno. Todos os alunos “nota A” (equivalente à nota dez no Brasil) são advogados e médicos, mas eu ganho mais dinheiro do que eles.

Eu tirava notas “C” (equivalente à nota cinco ou seis). Uma grande amiga minha era a garota mais inteligente da sala. Hoje, ela é professora universitária, e eu mando dinheiro, alguns milhares de dólares, sempre para ela poder dar bolsas de estudos aos alunos.

Ela é uma pessoa muito boa, mas é pobre.

Alguns desses colegas que só tiravam “A” ficam muito irritados com a minha situação atual, tendo sido um aluno “nota C”. Muitos perderam o emprego e as casas no ano passado, porque não sabiam nada de dinheiro.

Onde é ensinada a educação financeira?

Kiyosaki: Em casa, e é por isso que os ricos ficam mais ricos. Os filhos de Donald Trump, por exemplo, aprendem na prática, nos negócios do pai. Eu tive muita sorte, aprendi com meu “pai rico” (na verdade, é o pai do seu melhor amigo de infância, Mike, que lhe introduziu no mundo dos negócios), por isso as pessoas nas favelas não ficam ricas, mas muitos se tornam traficantes de drogas, que são quem as ensina. É em quem as crianças se inspiram para se tornar seu professor.

É um problema das favelas, pois há professores que são criminosos, e, quando as crianças vão para a escola, não aprendem nada sobre dinheiro. Elas não têm muita escolha, eu tive sorte, pois tive um “pai rico”.

Em que o senhor está investindo? O livro não deixa de ser um ativo. Quanto representa do seu ganho mensal?

Kiyosaki: Ouro, prata, petróleo e mercado imobiliário, não mudei.

A maior parte do meu dinheiro vem do petróleo. Mesmo com o barril a US$ 40, eu consigo fazer dinheiro.

Estou perfurando.

O livro representa 10% do meu ganho mensal. Eu tenho negócios. Eu não aposto em ações ou em qualquer mercado esperando que suba ou caia, o que eu quero é fluxo de caixa.

Nada em ações?

Kiyosaki: Ações, eu só tenho de companhias que eu fundei, como uma de energia solar.

Eu quero saber se eu posso ligar para o executivo e falar com ele.

O investidor médio não pode fazer isso ou analisar um balanço, não conhece os diretores e não tem acesso a informações privilegiadas (de dentro da empresa).

Ele está jogando no mercado de ações. É uma mentira dizer para o investidor médio que a Bolsa vai sempre subir. E o pior sobre isso é que as companhias de capital aberto e empresas de planejamento financeiro vão às empresas e escolas falar para as pessoas investirem em ações. É como talibãs convocarem homensbombas nas escolas.

O mercado de ações vai despencar novamente, eu garanto.

Então, a única forma é ser dono do próprio negócio?

Kiyosaki: Para mim, isso funciona, porém negócios também quebram e a média das pessoas não pode fazer o que eu faço.

Mas elas podem fazer algo, como se educar a respeito.

Aprender na prática?

Kiyosaki: Sim, mas você tem que escolher se quer ser um empreendedor, investir no mercado imobiliário, investir em ativos de papel, como ações, ou commodities (matériasprimas, como petróleo e metais).

E como o senhor consegue fazer dinheiro na crise?

Kiyosaki: Se você é um bom investidor, não faz diferença se a economia está crescendo ou encolhendo.

Você deve ser capaz de fazer dinheiro de qualquer forma. Os mercados sobem e descem. Mas é quando os preços caem que eu compro. Agora, estou comprando, comprando e comprando imóveis. Quanto mais a economia piora, mais eu enriqueço.

É trágico, porque a maioria fica mais pobre.

E isso deve continuar?

Kiyosaki: A situação dos próximos dois anos nos EUA é muito pior do que a que passou.

O que tivemos foi uma queda nos preços dos imóveis residenciais.

Mas o valor da propriedade despencou em geral. Os imóveis comerciais e corporativos estão caindo de preço. Será o próximo crash, que começa em 2010, quando vencem muitos dos financiamentos desses imóveis e as empresas deverão se refinanciar.

A pior queda ainda vai ocorrer, entre 2012 e 2016. A crise de 1929 só foi superada na Bolsa 25 anos depois.

No seu livro, escrito nos anos 1990, quando o preço dos imóveis estava subindo, o senhor fala muito sobre este mercado. Mudaria algo hoje?

Kiyosaki: Não. Quando eu vou comprar uma propriedade, se eu não for fazer dinheiro, eu não compro. O imóvel tem que ir bem, se valorizar. Isso significa que deve haver muitos empregos em volta. É por isso que eu não compro imóveis em Detroit, onde ficam as fábricas de automóveis nos EUA, mas em Tulsa (Oklahoma), onde há campos de petróleo.

E isso vale para propriedades comerciais e residenciais.

No setor imobiliário, há muitos negócios diferentes, como o de franquias, caso do McDonald’s, redes de varejo, escritórios, condomínios e até cemitérios são grandes negócios. Todo mundo está no mercado de imóveis, comprando ou alugando.

Quando se deu conta de que teve um pai rico e um pai pobre? Contou a eles estes nomes?

Kiyosaki: Eu não sabia até os 25 anos. Quando voltei do Vietnã, onde fui piloto, meu “pai rico” era um dos caras mais ricos do Havaí.

Quando eu tinha 19 anos, ele estava comprando o equivalente à Praia de Copacabana em terrenos, aí eu me dei conta do quão rico ele era. Mas tanto meu pai (o “pai pobre”) quanto meu “pai rico” estavam mortos quando eu escrevi o livro. Tive que esperar meu pai morrer, senão, ele morreria ao ler o livro (risos). Meus irmãos não gostaram.

“Quanto mais a economia piora, mais eu enriqueço. É trágico, porque a maioria fica mais pobre”

 

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